Cavalos e Suas Origens: Mangalarga Marchador — O Cavalo que Nasceu do Encontro entre a Família Real Portuguesa e os Fazendeiros Mineiros

A marcha de quatro tempos elimina o impacto do trote: o cavaleiro não sobe e desce. Raça nacional por lei, nascida em 1808, com 775 mil animais registrados.

Cavalos e Suas Origens: Mangalarga Marchador — O Cavalo que Nasceu do Encontro entre a Família Real Portuguesa e os Fazendeiros Mineiros
A égua Olímpia de Clarion em marcha picada, no Haras Clarion, em Pirapora, Minas Gerais. A marcha, andamento suave e sem solavancos, é a assinatura do Mangalarga Marchador. Foto: H. Stickel / domínio público / Wikimedia Commons.
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Em 1808, a corte portuguesa desembarcou no Rio de Janeiro fugindo de Napoleão, e D. João VI trouxe consigo cavalos Alter-Real, animais de parada criados para desfilar em Lisboa. Um deles foi parar numa fazenda no sul de Minas Gerais e cruzou com éguas nativas, rústicas e sem refinamento nenhum. O produto desse cruzamento andava de um jeito que Portugal nunca tinha visto.
775 milRegistrados no stud book
4 temposA marcha, sem suspensão
1808A chegada dos Alter-Reais
O Mangalarga Marchador é a raça equina nacional do Brasil, reconhecida pela Lei 12.975 de 19 de maio de 2014, originária do sul de Minas Gerais.¹ É definida por um andamento natural, a marcha, um passo de quatro tempos que elimina o impacto para o cavaleiro.² É a raça equina de origem brasileira mais numerosa, com mais de 775 mil animais registrados no stud book da Associação Brasileira dos Criadores do Cavalo Mangalarga Marchador (ABCCMM) e cerca de 26 mil associados.¹

É também a raça brasileira mais estudada geneticamente, e o que os pesquisadores encontraram no DNA dela contradiz boa parte do que se conta por aí.³

1808: a corte chega com os cavalos errados

Quando D. João VI transferiu a corte para o Brasil, o país deixou de ser colônia e passou a ser sede do Império Português. Vieram instituições, funcionários, cultura e cavalos.⁴

Os Alter-Reais que desembarcaram eram animais refinados, de temperamento aristocrático e andamento de gala, criados na Coudelaria de Alter do Chão, fundada em 1748 por D. João V. A base da raça era o Andaluz, com influência de sangue berbere e de cavalos nativos da Península Ibérica. Eram cavalos de desfile, procurados por príncipes europeus para atividades de lazer e serviço.⁴

Não foram criados para percorrer serras mineiras nem para jornadas longas em terreno acidentado. E era exatamente disso que o sul de Minas precisava.⁴

A região da Comarca do Rio das Mortes tinha chamado a atenção dos colonizadores pelas boas condições de criação: água em abundância e vegetação de matas, capões e ervas pardacentas, adequadas para forragem. Minas Gerais já se destacava como centro criador de equinos desde o século XVIII.⁴

Sublime, o primeiro produto do cruzamento

Gabriel Francisco Junqueira, o Barão de Alfenas, herdeiro da Fazenda Campo Alegre, recebeu um dos garanhões Alter-Real e o colocou para reproduzir com éguas nativas da região, animais de sangue berbere e crioulo, moldados pela dureza do interior brasileiro.⁴

O que saiu dali não era o cavalo de parada português nem a égua rústica mineira. Era um animal de porte elegante, temperamento dócil e um andamento que ninguém tinha encomendado. O Barão chamou o primeiro produto de Sublime.⁴

Seu sobrinho, José Frausino Junqueira, exímio caçador de veados, aprendeu a valorizar os marchadores por serem resistentes e ágeis para transportá-lo em jornadas longas. A seleção continuou por gerações, sempre pelos filhos que marchavam melhor.⁴

O que é a marcha, e por que ela não sacode

Quase todos os cavalos do mundo trotam. O trote é um andamento diagonal de dois tempos com fase de suspensão: os quatro cascos saem do chão ao mesmo tempo por uma fração de segundo. Esse instante de voo é o que gera o impacto quando o animal repousa os cascos de volta no chão. Para o cavaleiro, significa absorver um choque repetido durante horas de cavalgada.²

O Mangalarga Marchador não trota. Seu andamento natural é um passo de quatro tempos com tríplice apoio: em determinado momento do movimento, três membros estão em contato com o solo ao mesmo tempo. Enquanto o trote tem um instante em que o cavalo voa com os quatro pés no ar, a marcha nunca perde o contato com o chão. Não há suspensão, não há impacto, e o cavaleiro desliza.² ³

Essa marcha não é ensinada. Um bom Marchador nasce marchando.² E foi para entender como isso funciona que a genética entrou na história.

A marcha vem de um gene, mas não só

Em 2012, pesquisadores suecos publicaram na Nature a descoberta do gene DMRT3, que inibe a transição do trote para o galope e permite ao cavalo manter o andamento em velocidade. A mutação aparece em 68 das 141 raças já testadas no mundo, do cavalo islandês ao Standardbred americano.⁵

No Mangalarga Marchador, esse gene não decide se o animal marcha. Decide qual das duas marchas ele faz: cavalos que carregam a mutação executam a picada, e cavalos sem ela executam a batida.⁶ Marchar, em si, depende de muitos genes, e nenhum deles foi mapeado ainda. Quando pesquisadores leram o genoma inteiro da raça, em 2021, o DMRT3 nem apareceu. O que apareceu foram os genes que constroem os membros do potro ainda dentro da barriga da mãe.³

A história completa do gene está em O gene da marcha: o DMRT3 e as 68 raças que o carregam.

Marcha batida e marcha picada

As duas marchas principais são geneticamente distintas, e não é questão de treinamento: um cavalo nasce com uma ou com a outra.⁶ A batida predomina no sul de Minas Gerais, e a picada, no Nordeste.
Marcha batidaMovimento diagonal, em que o apoio diagonal é mais frequente que o tríplice apoio. Som compassado e regular, sensação encorpada com impulsão. É o cavalo sem a mutação do DMRT3. Predomina no sul de Minas Gerais, e é a preferida da maioria dos criadores para longas cavalgadas em terreno variado. Comparável ao fox trot americano.
Marcha picadaMovimento lateral, em que os apoios lateral e tríplice se sobrepõem, o que dá ao movimento execução mais suave. O deslocamento lateral praticamente elimina qualquer oscilação vertical. Exige a mutação do DMRT3. Predomina no Nordeste, na Bahia e em Pernambuco. Comparável ao paso llano peruano.³

A picada é historicamente mais rara porque depende de uma combinação genética específica que a batida dispensa.⁸ O stud book foi fechado para machos em 1966 e para fêmeas em 1984, e desde então a seleção aprofundou as diferenças entre as duas linhagens. Ambas são julgadas separadamente em competições oficiais.¹


Há um detalhe que quase ninguém no Brasil sabe: o mesmo gene atravessa a barreira das espécies. A produção de muares marchadores no país se faz cruzando jumentos da raça Pêga com éguas Mangalarga Marchador e Campolina. Um estudo de 2023 genotipou 159 mulas e 203 jumentos e encontrou o mesmo padrão: cerca de 47% das mulas tinham o padrão da marcha batida, e 53% o da picada.⁹

1949: a cisão que criou duas raças
Por décadas, criadores mineiros e paulistas conviveram sob o mesmo guarda-chuva associativo. Os mineiros queriam preservar a marcha batida e a picada como padrão. Os paulistas defendiam o trote marchado que haviam selecionado em São Paulo, introduzindo sangue de Puro-Sangue Inglês, Árabe e Saddlebred.¹

Em 16 de julho de 1949, no Parque de Exposições da Gameleira, em Belo Horizonte, foi fundada a Associação dos Criadores do Cavalo Mangalarga, com 142 sócios. O primeiro presidente foi Moacyr Rezende. No ano seguinte veio a marca oficial: uma ferradura com um M maiúsculo no interior, desenho que identifica os Marchadores até hoje.¹

O ramo paulista seguiu por conta própria e deu origem a uma raça diferente, o Mangalarga Paulista. São raças distintas, com stud books separados, apesar da origem comum.¹

775 mil registros, e a conta que não fecha

Há um paradoxo nos números da raça. São mais de 775 mil animais registrados, mas o DNA da raça se comporta como se ela tivesse menos de dez mil. A explicação é que poucos garanhões produzem quase todos os filhos: cerca de 35 ancestrais respondem por metade dos genes que circulam hoje.⁷

A causa está documentada: antes de a inseminação artificial ser oficializada, em 1994, o número máximo de filhos registrados por um garanhão em um ano era 176. Depois, saltou para 1.322.⁷ E a raça não tem programa de melhoramento genético: a seleção é feita empiricamente, em pista de competição.³

A investigação completa está em 775 mil animais, 9 mil cavalos: a reserva genética do Mangalarga Marchador.

Como um jurado olha uma marcha

A ABCCMM chancela cerca de 240 provas de marcha por ano. Nelas, os jurados avaliam o animal do chão e montado, e o regulamento define exatamente o que olhar, em ordem de importância.²

O primeiro quesito, e o mais decisivo, é o gesto de marcha. É a relação entre o movimento dos membros da frente e os de trás: como os pares avançam e apoiam, se em diagonal ou lateral, e se o cavalo mantém os momentos de tríplice apoio. Os anteriores devem descrever um semicírculo no ar. Os posteriores devem impulsionar com energia, mas em deslocamento reto, sem levantar demais o jarrete.²

O segundo é a comodidade. O cavalo bom é o que não transmite solavanco ao cavaleiro, nem para cima nem para os lados. É o quesito que traduz em nota o motivo pelo qual a raça existe.²

E o jurado desclassifica qualquer animal que manque. Na súmula, ele recebe a sigla CLA, e a checagem é obrigatória em todos os julgamentos de marcha e morfologia.²

São quatro marchas, não duasO regulamento da ABCCMM enquadra o animal em quatro classes de andamento, e não em duas. Além da batida, mais diagonal, e da picada, mais lateral, existe a marcha de centro, que fica no ponto de equilíbrio entre as duas e é a que melhor cumpre o padrão racial. É também a mais rara: os limites que a definem são estreitos, e poucos animais caem exatamente ali. A quarta classe é a marcha trotada, que aparece nos julgamentos como desvio a corrigir, não como qualidade.²

Para quem vai comprar, o caminho prático é curto. O site da ABCCMM permite consultar qualquer animal registrado: os pais, os filhos, as premiações em pista, e as premiações dos descendentes. Um cavalo que não aparece ali não tem registro, por mais bonito que seja o papel que o vendedor mostrar.¹

O que 83% dos potros têm e ninguém vê

Em 2009, veterinários da UFMG e da Faculdade de Castelo levaram trinta potros Mangalarga Marchador, entre doze e trinta e seis meses de idade, para exame clínico e radiográfico no Espírito Santo. Queriam saber o que havia dentro das articulações daqueles animais.⁸

Vinte e cinco dos trinta, ou 83,3%, tinham artrite no jarrete, a articulação que dobra na parte de trás do membro. Osso desgastado, espaço entre as juntas estreitado, calo ósseo se formando. Tudo isso antes dos três anos de idade. E apenas seis desses potros, 20% do total, mancavam.⁸

Quatro em cada cinco animais tinham a articulação comprometida e não davam sinal. O criador olhava e não via nada.

A causa que os autores apontam não é o sangue. É o calendário. Potro treinado cedo demais carrega peso sobre uma articulação que ainda não terminou de endurecer. O osso cede antes de ficar pronto.⁸

A seleção da raça é feita em pista de competição.³ Para chegar à pista, o potro precisa estar pronto cedo. E o potro que trabalha cedo demais chega aos três anos com o jarrete gasto.
O que este estudo diz e o que não dizForam trinta potros, de um único município, avaliados em 2009. Não é a prevalência nacional da raça, e nenhum levantamento desse porte foi feito depois. O que o estudo estabelece é a associação entre treinamento precoce e lesão articular silenciosa, e o alerta de que o exame clínico sozinho não basta para detectá-la. Um trabalho de cinemática publicado em 2021, com cinco Marchadores usados apenas para lazer, não encontrou nenhum mancando nem com dor nas costas. A amostra é pequena, mas aponta na mesma direção: o problema não está na marcha, está na pressa.

Sobre doenças hereditárias, a resposta honesta é que ninguém sabe. Existe no Brasil um painel de testes genéticos para seis doenças equinas, mas ele foi desenhado a partir do Quarto de Milha, e nunca houve levantamento de prevalência dessas mutações no Mangalarga Marchador.¹⁰

Isso não quer dizer que a raça seja livre delas. Quer dizer que a raça brasileira mais numerosa, com 775 mil animais registrados e a reserva genética concentrada em poucas dezenas de ancestrais, nunca foi rastreada.

Como é o Mangalarga Marchador

O Marchador é um cavalo de porte médio a compacto, construído para trabalho e não para exibição. A herança do Alter-Real aparece em cada detalhe.¹


AlturaMachos: 1,47 m a 1,57 m na cernelha. Fêmeas: 1,40 m a 1,54 m.¹
PesoAproximadamente 400 kg.¹
CabeçaTamanho médio, triangular vista de frente, testa larga e plana, olhos grandes e expressivos. O perfil vai de reto a levemente côncavo no focinho, o que os criadores chamam de perfil de carneiro. Orelhas médias, com as pontas levemente voltadas para dentro.¹
Pescoço e cernelhaPescoço longo e musculoso, de inserção alta, o que dá a postura ereta característica da raça. A cernelha, a protuberância logo atrás do pescoço, é saliente.¹
EspáduaInclinada para trás, o que os criadores chamam de oblíqua. Não é detalhe estético: contribui diretamente para a qualidade da marcha, permitindo que o cavalo estenda bem os membros anteriores a cada passo.¹
TemperamentoDócil, o que torna a raça uma das mais acessíveis para cavaleiros iniciantes entre as brasileiras. O andamento sem impacto facilita o aprendizado e reduz o cansaço nas primeiras horas de sela.¹

Linha do tempo

1808A corte portuguesa chega ao Brasil. Garanhões Alter-Reais vão para o sul de Minas Gerais.
c. 1810Gabriel Francisco Junqueira, o Barão de Alfenas, nomeia Sublime o primeiro produto do cruzamento.
194916 de julho: fundação da associação, com 142 sócios. A cisão separa o Marchador do Mangalarga Paulista.
1966Stud book fechado para machos. Em 1984, para fêmeas.
1994Oficialização da inseminação artificial. O teto de filhos por garanhão salta de 176 para 1.322 ao ano.
2012A revista Nature publica a descoberta do DMRT3, o gene que decide qual marcha o cavalo executa.
201419 de maio: a Lei 12.975 declara o Marchador raça nacional do Brasil.
2021Varredura do genoma da raça não encontra o DMRT3, e revela os genes HOX da arquitetura corporal.

Curiosidades

Uma raça velha num genoma jovemQuando se lê o genoma de um Marchador, os pedaços de DNA que ele herdou de ancestrais comuns são quase todos pequenos.³ Isso quer dizer que os parentes em comum estão longe, várias gerações atrás, e não no avô. O aperto genético da raça não vem de cruzamentos entre parentes próximos feitos ontem. Vem do funil de poucos garanhões campeões que se formou nas últimas três décadas.

Ficha técnica

Nome oficialCavalo Mangalarga Marchador
OrigemSul de Minas Gerais, Brasil, a partir de 1808
Status legalRaça nacional do Brasil, Lei 12.975 de 19/05/2014
Stud bookABCCMM, fundada em 16/07/1949. Fechado para machos em 1966 e para fêmeas em 1984
FundadorSublime, na Fazenda Campo Alegre, de Gabriel Francisco Junqueira, o Barão de Alfenas
AndamentoMarcha de quatro tempos, sem momento de suspensão. Quatro classes no regulamento: picada, de centro, batida e trotada
Genética da marchaO gene DMRT3 determina qual das duas marchas, não a capacidade de marchar, que depende de muitos genes ainda não mapeados
RegistradosMais de 775 mil no stud book da ABCCMM, com cerca de 26 mil associados
Reserva genéticaCerca de 35 ancestrais respondem por metade dos genes da raça (UFMG, 2009)
Programa de melhoramentoInexistente. A seleção é feita por competição, de forma empírica (BMC Genomics, 2021)
SaúdeSem doença hereditária documentada, mas sem levantamento de prevalência jamais feito. Alerta de osteoartrite társica em potros treinados cedo demais
Preço no BrasilR$ 8.000 a R$ 15.000 (jovem sem treino); R$ 30.000 a R$ 80.000 (treinado, registrado); acima de R$ 150.000 (elite)
Por que a marcha do Mangalarga Marchador não sacode o cavaleiro?

Porque não existe momento de suspensão. No trote, os quatro cascos deixam o chão ao mesmo tempo por uma fração de segundo, e o impacto vem quando o animal repousa os cascos de volta. Na marcha, que é um andamento de quatro tempos, o cavalo mantém sempre pelo menos três membros em contato com o solo. Sem suspensão, não há impacto, e o cavaleiro desliza.²

A marcha é ensinada ou é genética?

É genética, mas não vem de um gene só. O gene DMRT3, publicado na Nature em 2012, determina qual das duas marchas o animal executa: com a mutação, faz a picada; sem ela, faz a batida.⁵ ⁷ Marchar, em si, depende de muitos genes, e nenhum deles foi mapeado ainda. Quando pesquisadores leram o genoma inteiro da raça, em 2021, o DMRT3 nem apareceu.³

Qual a diferença entre marcha batida e marcha picada?

A diferença é genética, não de treinamento. Na marcha batida, o movimento é diagonal e o cavalo não carrega a mutação do gene DMRT3. Na marcha picada, o movimento é lateral e mais suave, e o cavalo carrega a mutação.³ ⁷ A batida predomina no sul de Minas Gerais e a picada no Nordeste.

O Mangalarga Marchador tem só duas marchas?

Não. O regulamento da ABCCMM enquadra o animal em quatro classes de andamento: marcha picada (mais lateral), marcha batida (mais diagonal), marcha de centro (o ponto de equilíbrio entre as duas, e a que melhor cumpre o padrão racial) e marcha trotada, que aparece nos julgamentos como desvio a corrigir.² A marcha de centro é a mais rara, porque os limites que a definem são estreitos.

Quanto custa um Mangalarga Marchador?

Animais jovens sem treinamento específico podem ser encontrados a partir de R$ 8.000 a R$ 15.000. Cavalos treinados e com registro completo ficam na faixa de R$ 30.000 a R$ 80.000. Exemplares de elite com resultados em exposição ou enduro podem ultrapassar R$ 150.000. O mercado é mais ativo no sul de Minas Gerais.¹

O uso massivo de inseminação artificial prejudica a raça?

É um risco documentado. Apesar dos mais de 775 mil registrados, o tamanho efetivo da população é de 9.174 animais, e cerca de 35 ancestrais respondem por metade da reserva genética. Antes de 1994, um garanhão registrava no máximo 176 filhos por ano. Depois, chegou a 1.322.¹⁰ Os pesquisadores recomendam diversificar reprodutores e cruzar animais de regiões que ainda se cruzam pouco entre si.

O Mangalarga Marchador tem programa de melhoramento genético?

Não. Um estudo genômico publicado em 2021 na BMC Genomics registra que a seleção na raça é feita exclusivamente com base em competições, de forma empírica, e atribui a esse fato a ausência de linhagens geneticamente bem definidas.³ Desde 2016, a Universidade Federal de Lavras trabalha com a ABCCMM e o Ministério da Agricultura para dar base ao primeiro programa de melhoramento genético equino do Brasil. A investigação completa está em 775 mil animais, 9 mil cavalos.

O Mangalarga Marchador tem problema de saúde característico da raça?

Não há doença hereditária conhecida e documentada na raça, mas isso se deve em parte à ausência de estudos: nunca houve levantamento de prevalência das mutações do painel genético equino no Mangalarga Marchador.¹⁰ O que existe é um alerta sobre manejo. Um estudo com trinta potros de 12 a 36 meses encontrou osteoartrite no tarso em 83,3% deles, embora apenas 20% mancassem. Os autores associam o quadro ao treinamento precoce demais, sobre uma articulação que ainda não terminou de endurecer.⁸ A recomendação prática é exigir exame radiográfico antes de comprar um potro em treinamento, porque olhar o cavalo andar não basta para encontrar a lesão.

Qual a diferença entre Mangalarga e Mangalarga Marchador?

São raças distintas, com stud books separados. A origem é comum, no sul de Minas do século XIX, mas se separaram nos anos 1940. O Mangalarga Paulista foi selecionado para o trote marchado e tem porte maior. O Marchador foi selecionado pela marcha batida ou picada, e é mais compacto.¹

Fontes

  1. ABCCMM, Associação Brasileira dos Criadores do Cavalo Mangalarga Marchador. História da fundação, origem da raça, padrão racial, regulamento do stud book, marca oficial e dados de registro. abccmm.org.br.
  2. ABCCMM. Regulamento Geral para Eventos Oficializados do Cavalo Mangalarga Marchador. Art. 18 (quesitos de julgamento da marcha, em ordem de relevância: gesto de marcha e dissociação, comodidade e estabilidade), Art. 42 (metodologia obrigatória de avaliação da claudicação em todos os julgamentos de marcha e morfologia) e Art. 47 (composição dos julgamentos por faixa etária). Enquadramento do animal em quatro classes de andamento: Marcha Picada, Marcha de Centro, Marcha Batida e Marcha Trotada. leia.abccmm.org.br.
  3. Santos, W. B. dos et al. "Genome-wide scans for signatures of selection in Mangalarga Marchador horses using high-throughput SNP genotyping." BMC Genomics, v. 22, artigo 737, 2021. DOI: 10.1186/s12864-021-08053-8. Amostra de 192 animais genotipados com chip Axiom Equine 670k. link.springer.com.
  4. Costa, M. D. et al. "Caracterização demográfica da raça Mangalarga Marchador." Arquivo Brasileiro de Medicina Veterinária e Zootecnia, v. 56, n. 5, p. 687-690, 2004. Origem histórica, chegada dos Alter-Reais em 1808 e formação da raça no sul de Minas Gerais.
  5. Andersson, L. S. et al. "Mutations in DMRT3 affect locomotion in horses and spinal circuit function in mice." Nature, v. 488, p. 642-646, 2012. DOI: 10.1038/nature11399. PMID: 22932389. nature.com.
  6. Fonseca, M. G. et al. "A genome-wide association study reveals differences in the genetic mechanism of control of the two gait patterns of the Brazilian Mangalarga Marchador breed." Journal of Equine Veterinary Science, v. 53, p. 64-67, 2017. DOI: 10.1016/j.jevs.2016.01.015.
  7. DeAssis, J. B. et al. "Genetic diversity and population structure in Brazilian Mangalarga Marchador horses." Genetics and Molecular Research, v. 8, n. 4, p. 1519-1524, 2009. PMID: 20082264. Tamanho efetivo de 9.174 animais e 35 ancestrais respondendo por até metade da reserva genética.
  8. Garcia, R. S.; Melo, U. P. de; Ferreira, C.; Toscano, F. S.; Cruz, G. M. da. "Estudo clínico e radiográfico da osteoartrite társica juvenil em potros da raça Mangalarga Marchador." Ciência Animal Brasileira, v. 10, n. 1, p. 254-260, 2009. UFMG e Faculdade de Castelo. Trinta potros de 12 a 36 meses, em Castelo (ES): 83,3% com osteoartrite társica, dos quais apenas 20% apresentavam claudicação. revistas.ufg.br.
  9. Simonato, S. P. et al. "3D kinematic of the thoracolumbar spine in Mangalarga Marchador horses performing the marcha batida gait." PLOS ONE, 2021. DOI: 10.1371/journal.pone.0253697. Cinco Marchadores de lazer, sem claudicação nem dor toracolombar.
  10. VRGEN, Laboratório de DNA Animal. Painel de testes genéticos equinos disponíveis no Brasil, desenhado a partir do Quarto de Milha. Não há levantamento publicado de prevalência dessas mutações no Mangalarga Marchador.
André Ferreira

André Ferreira

André Ferreira é o responsável pela direção editorial do Multicavalos. Sua área é a pesquisa: reunir a origem e a história de cada raça a partir de fontes primárias, confrontá-las quando discordam e separar o que é dado firme do que é estimativa. É um trabalho de documentação, e cada perfil do acervo passa por esse cuidado antes de ir ao ar.