Cavalos e Suas Origens: Mangalarga Marchador — O Cavalo que Nasceu do Encontro entre a Família Real Portuguesa e os Fazendeiros Mineiros
A marcha de quatro tempos elimina o impacto do trote: o cavaleiro não sobe e desce. Raça nacional por lei, nascida em 1808, com 775 mil animais registrados.
André Ferreira15 min de leitura
O Mangalarga Marchador é a raça equina nacional do Brasil, reconhecida pela Lei 12.975 de 19 de maio de 2014, originária do sul de Minas Gerais.¹ É definida por um andamento natural, a marcha, um passo de quatro tempos que elimina o impacto para o cavaleiro.² É a raça equina de origem brasileira mais numerosa, com mais de 775 mil animais registrados no stud book da Associação Brasileira dos Criadores do Cavalo Mangalarga Marchador (ABCCMM) e cerca de 26 mil associados.¹
É também a raça brasileira mais estudada geneticamente, e o que os pesquisadores encontraram no DNA dela contradiz boa parte do que se conta por aí.³
1808: a corte chega com os cavalos errados
Quando D. João VI transferiu a corte para o Brasil, o país deixou de ser colônia e passou a ser sede do Império Português. Vieram instituições, funcionários, cultura e cavalos.⁴
Os Alter-Reais que desembarcaram eram animais refinados, de temperamento aristocrático e andamento de gala, criados na Coudelaria de Alter do Chão, fundada em 1748 por D. João V. A base da raça era o
Andaluz, com influência de sangue berbere e de cavalos nativos da Península Ibérica. Eram cavalos de desfile, procurados por príncipes europeus para atividades de lazer e serviço.⁴
Não foram criados para percorrer serras mineiras nem para jornadas longas em terreno acidentado. E era exatamente disso que o sul de Minas precisava.⁴
A região da Comarca do Rio das Mortes tinha chamado a atenção dos colonizadores pelas boas condições de criação: água em abundância e vegetação de matas, capões e ervas pardacentas, adequadas para forragem. Minas Gerais já se destacava como centro criador de equinos desde o século XVIII.⁴
Sublime, o primeiro produto do cruzamento
Gabriel Francisco Junqueira, o Barão de Alfenas, herdeiro da Fazenda Campo Alegre, recebeu um dos garanhões Alter-Real e o colocou para reproduzir com éguas nativas da região, animais de sangue berbere e crioulo, moldados pela dureza do interior brasileiro.⁴
O que saiu dali não era o cavalo de parada português nem a égua rústica mineira. Era um animal de porte elegante, temperamento dócil e um andamento que ninguém tinha encomendado. O Barão chamou o primeiro produto de Sublime.⁴
Seu sobrinho, José Frausino Junqueira, exímio caçador de veados, aprendeu a valorizar os marchadores por serem resistentes e ágeis para transportá-lo em jornadas longas. A seleção continuou por gerações, sempre pelos filhos que marchavam melhor.⁴
O que é a marcha, e por que ela não sacode
Quase todos os cavalos do mundo trotam. O trote é um andamento diagonal de dois tempos com fase de suspensão: os quatro cascos saem do chão ao mesmo tempo por uma fração de segundo. Esse instante de voo é o que gera o impacto quando o animal repousa os cascos de volta no chão. Para o cavaleiro, significa absorver um choque repetido durante horas de cavalgada.²
O Mangalarga Marchador não trota. Seu andamento natural é um passo de quatro tempos com tríplice apoio: em determinado momento do movimento, três membros estão em contato com o solo ao mesmo tempo. Enquanto o trote tem um instante em que o cavalo voa com os quatro pés no ar, a marcha nunca perde o contato com o chão. Não há suspensão, não há impacto, e o cavaleiro desliza.² ³
Essa marcha não é ensinada. Um bom Marchador nasce marchando.² E foi para entender como isso funciona que a genética entrou na história.
A marcha vem de um gene, mas não só
Em 2012, pesquisadores suecos publicaram na Nature a descoberta do gene DMRT3, que inibe a transição do trote para o galope e permite ao cavalo manter o andamento em velocidade. A mutação aparece em 68 das 141 raças já testadas no mundo, do cavalo islandês ao Standardbred americano.⁵
No Mangalarga Marchador, esse gene não decide se o animal marcha. Decide qual das duas marchas ele faz: cavalos que carregam a mutação executam a picada, e cavalos sem ela executam a batida.⁶ Marchar, em si, depende de muitos genes, e nenhum deles foi mapeado ainda. Quando pesquisadores leram o genoma inteiro da raça, em 2021, o DMRT3 nem apareceu. O que apareceu foram os genes que constroem os membros do potro ainda dentro da barriga da mãe.³
A história completa do gene está em O gene da marcha: o DMRT3 e as 68 raças que o carregam.
1949: a cisão que criou duas raças
Por décadas, criadores mineiros e paulistas conviveram sob o mesmo guarda-chuva associativo. Os mineiros queriam preservar a marcha batida e a picada como padrão. Os paulistas defendiam o trote marchado que haviam selecionado em São Paulo, introduzindo sangue de
Puro-Sangue Inglês,
Árabe e Saddlebred.¹
Em 16 de julho de 1949, no Parque de Exposições da Gameleira, em Belo Horizonte, foi fundada a Associação dos Criadores do Cavalo Mangalarga, com 142 sócios. O primeiro presidente foi Moacyr Rezende. No ano seguinte veio a marca oficial: uma ferradura com um M maiúsculo no interior, desenho que identifica os Marchadores até hoje.¹
O ramo paulista seguiu por conta própria e deu origem a uma raça diferente, o Mangalarga Paulista. São raças distintas, com stud books separados, apesar da origem comum.¹
775 mil registros, e a conta que não fecha
Há um paradoxo nos números da raça. São mais de 775 mil animais registrados, mas o DNA da raça se comporta como se ela tivesse menos de dez mil. A explicação é que poucos garanhões produzem quase todos os filhos: cerca de 35 ancestrais respondem por metade dos genes que circulam hoje.⁷
A causa está documentada: antes de a inseminação artificial ser oficializada, em 1994, o número máximo de filhos registrados por um garanhão em um ano era 176. Depois, saltou para 1.322.⁷ E a raça não tem programa de melhoramento genético: a seleção é feita empiricamente, em pista de competição.³
A investigação completa está em 775 mil animais, 9 mil cavalos: a reserva genética do Mangalarga Marchador.
Como um jurado olha uma marcha
A ABCCMM chancela cerca de 240 provas de marcha por ano. Nelas, os jurados avaliam o animal do chão e montado, e o regulamento define exatamente o que olhar, em ordem de importância.²
O primeiro quesito, e o mais decisivo, é o gesto de marcha. É a relação entre o movimento dos membros da frente e os de trás: como os pares avançam e apoiam, se em diagonal ou lateral, e se o cavalo mantém os momentos de tríplice apoio. Os anteriores devem descrever um semicírculo no ar. Os posteriores devem impulsionar com energia, mas em deslocamento reto, sem levantar demais o jarrete.²
O segundo é a comodidade. O cavalo bom é o que não transmite solavanco ao cavaleiro, nem para cima nem para os lados. É o quesito que traduz em nota o motivo pelo qual a raça existe.²
E o jurado desclassifica qualquer animal que manque. Na súmula, ele recebe a sigla CLA, e a checagem é obrigatória em todos os julgamentos de marcha e morfologia.²
São quatro marchas, não duasO regulamento da ABCCMM enquadra o animal em quatro classes de andamento, e não em duas. Além da batida, mais diagonal, e da picada, mais lateral, existe a marcha de centro, que fica no ponto de equilíbrio entre as duas e é a que melhor cumpre o padrão racial. É também a mais rara: os limites que a definem são estreitos, e poucos animais caem exatamente ali. A quarta classe é a marcha trotada, que aparece nos julgamentos como desvio a corrigir, não como qualidade.²
Para quem vai comprar, o caminho prático é curto. O site da ABCCMM permite consultar qualquer animal registrado: os pais, os filhos, as premiações em pista, e as premiações dos descendentes. Um cavalo que não aparece ali não tem registro, por mais bonito que seja o papel que o vendedor mostrar.¹
O que 83% dos potros têm e ninguém vê
Em 2009, veterinários da UFMG e da Faculdade de Castelo levaram trinta potros Mangalarga Marchador, entre doze e trinta e seis meses de idade, para exame clínico e radiográfico no Espírito Santo. Queriam saber o que havia dentro das articulações daqueles animais.⁸
Vinte e cinco dos trinta, ou 83,3%, tinham artrite no jarrete, a articulação que dobra na parte de trás do membro. Osso desgastado, espaço entre as juntas estreitado, calo ósseo se formando. Tudo isso antes dos três anos de idade. E apenas seis desses potros, 20% do total, mancavam.⁸
Quatro em cada cinco animais tinham a articulação comprometida e não davam sinal. O criador olhava e não via nada.
A causa que os autores apontam não é o sangue. É o calendário. Potro treinado cedo demais carrega peso sobre uma articulação que ainda não terminou de endurecer. O osso cede antes de ficar pronto.⁸
A seleção da raça é feita em pista de competição.³ Para chegar à pista, o potro precisa estar pronto cedo. E o potro que trabalha cedo demais chega aos três anos com o jarrete gasto.
O que este estudo diz e o que não dizForam trinta potros, de um único município, avaliados em 2009. Não é a prevalência nacional da raça, e nenhum levantamento desse porte foi feito depois. O que o estudo estabelece é a associação entre treinamento precoce e lesão articular silenciosa, e o alerta de que o exame clínico sozinho não basta para detectá-la. Um trabalho de cinemática publicado em 2021, com cinco Marchadores usados apenas para lazer, não encontrou nenhum mancando nem com dor nas costas.⁹ A amostra é pequena, mas aponta na mesma direção: o problema não está na marcha, está na pressa.
Sobre doenças hereditárias, a resposta honesta é que ninguém sabe. Existe no Brasil um painel de testes genéticos para seis doenças equinas, mas ele foi desenhado a partir do Quarto de Milha, e nunca houve levantamento de prevalência dessas mutações no Mangalarga Marchador.¹⁰
Isso não quer dizer que a raça seja livre delas. Quer dizer que a raça brasileira mais numerosa, com 775 mil animais registrados e a reserva genética concentrada em poucas dezenas de ancestrais, nunca foi rastreada.
Por que a marcha do Mangalarga Marchador não sacode o cavaleiro?
Porque não existe momento de suspensão. No trote, os quatro cascos deixam o chão ao mesmo tempo por uma fração de segundo, e o impacto vem quando o animal repousa os cascos de volta. Na marcha, que é um andamento de quatro tempos, o cavalo mantém sempre pelo menos três membros em contato com o solo. Sem suspensão, não há impacto, e o cavaleiro desliza.²
A marcha é ensinada ou é genética?
É genética, mas não vem de um gene só. O gene DMRT3, publicado na Nature em 2012, determina qual das duas marchas o animal executa: com a mutação, faz a picada; sem ela, faz a batida.⁵ ⁷ Marchar, em si, depende de muitos genes, e nenhum deles foi mapeado ainda. Quando pesquisadores leram o genoma inteiro da raça, em 2021, o DMRT3 nem apareceu.³
Qual a diferença entre marcha batida e marcha picada?
A diferença é genética, não de treinamento. Na marcha batida, o movimento é diagonal e o cavalo não carrega a mutação do gene DMRT3. Na marcha picada, o movimento é lateral e mais suave, e o cavalo carrega a mutação.³ ⁷ A batida predomina no sul de Minas Gerais e a picada no Nordeste.
O Mangalarga Marchador tem só duas marchas?
Não. O regulamento da ABCCMM enquadra o animal em quatro classes de andamento: marcha picada (mais lateral), marcha batida (mais diagonal), marcha de centro (o ponto de equilíbrio entre as duas, e a que melhor cumpre o padrão racial) e marcha trotada, que aparece nos julgamentos como desvio a corrigir.² A marcha de centro é a mais rara, porque os limites que a definem são estreitos.
Quanto custa um Mangalarga Marchador?
Animais jovens sem treinamento específico podem ser encontrados a partir de R$ 8.000 a R$ 15.000. Cavalos treinados e com registro completo ficam na faixa de R$ 30.000 a R$ 80.000. Exemplares de elite com resultados em exposição ou enduro podem ultrapassar R$ 150.000. O mercado é mais ativo no sul de Minas Gerais.¹
O uso massivo de inseminação artificial prejudica a raça?
É um risco documentado. Apesar dos mais de 775 mil registrados, o tamanho efetivo da população é de 9.174 animais, e cerca de 35 ancestrais respondem por metade da reserva genética. Antes de 1994, um garanhão registrava no máximo 176 filhos por ano. Depois, chegou a 1.322.¹⁰ Os pesquisadores recomendam diversificar reprodutores e cruzar animais de regiões que ainda se cruzam pouco entre si.
O Mangalarga Marchador tem programa de melhoramento genético?
Não. Um estudo genômico publicado em 2021 na BMC Genomics registra que a seleção na raça é feita exclusivamente com base em competições, de forma empírica, e atribui a esse fato a ausência de linhagens geneticamente bem definidas.³ Desde 2016, a Universidade Federal de Lavras trabalha com a ABCCMM e o Ministério da Agricultura para dar base ao primeiro programa de melhoramento genético equino do Brasil. A investigação completa está em 775 mil animais, 9 mil cavalos.
O Mangalarga Marchador tem problema de saúde característico da raça?
Não há doença hereditária conhecida e documentada na raça, mas isso se deve em parte à ausência de estudos: nunca houve levantamento de prevalência das mutações do painel genético equino no Mangalarga Marchador.¹⁰ O que existe é um alerta sobre manejo. Um estudo com trinta potros de 12 a 36 meses encontrou osteoartrite no tarso em 83,3% deles, embora apenas 20% mancassem. Os autores associam o quadro ao treinamento precoce demais, sobre uma articulação que ainda não terminou de endurecer.⁸ A recomendação prática é exigir exame radiográfico antes de comprar um potro em treinamento, porque olhar o cavalo andar não basta para encontrar a lesão.
Qual a diferença entre Mangalarga e Mangalarga Marchador?
São raças distintas, com stud books separados. A origem é comum, no sul de Minas do século XIX, mas se separaram nos anos 1940. O Mangalarga Paulista foi selecionado para o trote marchado e tem porte maior. O Marchador foi selecionado pela marcha batida ou picada, e é mais compacto.¹