Cavalos e Suas Origens: Cavalo da Floresta Negra — A Raça que Sobreviveu Desobedecendo a Lei

O Schwarzwälder Kaltblut sobreviveu desobedecendo o Körgesetz de 1880. Em 1973, restavam quatro garanhões. Hoje volta ao trabalho na floresta.

Cavalos e Suas Origens: Cavalo da Floresta Negra — A Raça que Sobreviveu Desobedecendo a Lei
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Em 1973, na parada anual de garanhões do Haupt- und Landgestüt Marbach, o Landstallmeister Georg Wenzler pegou o microfone e disse à plateia de criadores que aquele seria, provavelmente, o último ano do Schwarzwälder Kaltblut. Restavam quatro garanhões reprodutores em toda a Floresta Negra, e 103 coberturas no ano. O que Wenzler não dizia, talvez por não saber, é que aquela raça já tinha passado oito décadas sendo dada como perdida, e tinha sobrevivido assim mesmo, porque os camponeses do Hochschwarzwald tinham o hábito de cobrir suas éguas escondido do estado.
1880Lei tenta acabar com o tipo
4Garanhões reprodutores em 1973
1.000Éguas registradas em 2022
O Cavalo da Floresta Negra, em alemão Schwarzwälder Kaltblut, também chamado de Schwarzwälder Fuchs ou Wälderpferd, é uma raça de tração leve a média do sul da Alemanha. Foi criado por camponeses de montanha em altitudes acima de 600 metros, onde os pesados Belgier e Ardenner que o estado preferia não rendiam. O stud book oficial é mantido pelo Pferdezuchtverband Baden-Württemberg (PZVBW), em Marbach, e a raça é hoje reconhecida como patrimônio cultural do estado.¹ ² ³

Os monges, e depois os camponeses

A criação organizada de cavalos no alto Schwarzwald começou nos mosteiros. Entre 1115 e 1118 fundou-se o de St. Märgen, e junto com os vizinhos de St. Peter e St. Blasien os cônegos agostinianos passaram a comprar reprodutores e orientar os cruzamentos da região, séculos antes de existir qualquer stud book.⁴ ⁵

O registro escrito mais antigo são os Dingrodel, listas de tributos da Abadia de St. Peter: por volta de 1450, uma delas cobra quatro pfennigs por cada potro nascido. Um imposto sobre nascimento de cavalo só existe onde há cavalo nascendo o bastante para valer a taxa.⁵ ⁶

Com a secularização de 1806 os mosteiros se dissolveram e a criação ficou inteira na mão dos camponeses, que tinham um método próprio e duro: as ladeiras da estrada do Schwarzwald viravam pista de teste, e o garanhão que puxava melhor morro acima ganhava as éguas da temporada. Saiu dali um cavalo de trabalho resistente e ágil, feito para o terreno e não para a vitrine. Foi esse cavalo que o estado decidiu, no fim do século, que precisava mudar.⁵

9 de abril de 1880: a lei contra o cavalo

Em 9 de abril de 1880 entrou em vigor o Körgesetz badense. A partir dele, nenhuma égua no estado de Baden podia ser coberta por garanhão que a autoridade não tivesse aprovado, e o Landgestüt de Karlsruhe só aprovava os pesados: Belgier, Ardenner, renanos. A indústria queria cavalos grandes para puxar carga em estrada pavimentada, e o miúdo Wälderpferd das montanhas não servia ao plano. Karlsruhe decidiu criar um cavalo melhor por decreto.⁷

Os camponeses deram a volta na lei. Levavam a égua ao garanhão Belgier que o estado mandava, como exigido, mas antes disso passavam por um garanhão Schwarzwälder da própria região, à parte, longe do inspetor. A égua saía prenhe do cavalo errado e os papéis diziam que era do certo. A manobra ganhou nome: schwarzer Sprung, a monta negra, e o próprio Pferdezuchtverband Baden-Württemberg a reconhece hoje como a razão de o tipo Wälderpferd ter sobrevivido à imposição estatal.⁸ ⁹

A resistência durou de 1880 a cerca de 1960, oitenta anos. Geração após geração pagou a multa quando foi pega e continuou fazendo, porque o cavalo cruzado com Belgier pesado não aguentava a encosta: faltava-lhe pé para a ladeira e sobrava-lhe peso para o pasto magro de altitude. Anton Straub, criador e prefeito de Langenordnach, chamaria aquela imposição de papierene Landwirtschaft, agricultura de papel: cavalos bons no regulamento e que passavam fome no inverno do Hochschwarzwald.⁵

O melhor exemplo da teimosia é o ardennais Marquis B7, nascido em 1896. Ficou cego, e o estado cancelou sua aprovação, porque cavalo cego não cobre no regulamento. Mas não o castraram, e os criadores seguiram levando éguas a ele por fora. Os potros saíam bons demais para passar despercebidos, e em 1914 uma delegação foi até Karlsruhe defender o garanhão proibido diante do ministério. Ganhou: Marquis B7 foi reaprovado. Décadas depois, no pedigree do premiado Moritz, de 1983, o nome dele ainda aparece oito vezes.¹⁰

O colapso, e o resgate pago pelo estado

Depois da guerra, por um momento, pareceu que a raça resistiria: em 1947, com trator ainda caro, o stud book registrava 1.234 éguas. Foi o Marshall Plan que virou o jogo: dinheiro americano barateou o trator, e em uma década a pequena propriedade europeia trocou o animal pela máquina. Em 1977 as éguas inscritas chegaram a 159, e das nove linhagens de garanhão da raça, sete já tinham sumido.¹ ⁵ ¹¹

O que salvou a raça foi dinheiro público, e a tempo. Em 1972, Baden-Württemberg passou a pagar um subsídio direto a quem mantivesse égua reprodutora e criasse potro. Foi o mesmo estado que oitenta anos antes tinha tentado apagar o tipo, agora pagando para preservá-lo. O Haupt- und Landgestüt Marbach assumiu a guarda dos poucos garanhões e abriu o sêmen deles, por inseminação, a qualquer criador.³ ⁸

Reconstruir a partir de tão pouco exigiu sangue de fora sem descaracterizar o tipo. Das duas linhagens sobreviventes, a do garanhão Mittler tem a melhor história: levado pelos franceses como reparação de guerra em 1945, foi procurado pelo criador Richard Blattmann num vilarejo chamado Mülben, recuperado em 1946 e trazido de volta às montanhas. Sobre essa base, e com Noriker, Freiberger e Schleswiger introduzidos de modo controlado, o plantel foi reerguido.¹⁰ ¹²

Um alazão de crina clara

A marca visual da raça é o alazão escuro de crina, cauda e franja claras, quase loiras. Nem sempre foi assim: em 1900 o plantel era 40% alazão, 37% castanho, 13% preto e 10% tordilho. O gargalo dos anos 1970 quase só deixou alazães, e desde então o programa de conservação trabalha para trazer de volta as outras três cores.

O caso mais extremo foi o do tordilho: restava uma única égua viva da cor, e entre 2018 e 2020 o PZVBW recorreu a transferência de embrião para tirar dela descendência antes que fosse tarde.³ ¹³

A crina clara tem explicação genética. A raça é, na quase totalidade, alazã por herança recessiva (genótipo ee no gene MC1R), e sobre essa base atua a mutação Silver no gene PMEL17. 

Um estudo de Mömke e colegas, de 2013, mediu a presença dela nos Schwarzwälder; o problema, mostrado por Andersson e colegas no mesmo ano, é que herdada em dose dupla a mutação Silver está ligada à síndrome ocular MCOA, que afeta a visão. Preservar a variedade de cores, ali, é também não concentrar um defeito.¹⁴ ¹⁵

Por que a raça volta ao trabalho na floresta

Em 2021, o acordo de coalizão do governo federal alemão trouxe uma linha inesperada num documento de gabinete: aumentar o uso de cavalos de arrasto na exploração madeireira. O motivo é prosaico. O trator florestal pesado comprime o solo da mata por onde passa, e solo compactado absorve menos água e segura menos raiz. Onde a máquina estraga, o cavalo não. O mesmo trator que quase extinguiu o Schwarzwälder acabou abrindo espaço para o seu retorno.¹⁶

Em terreno íngreme, num corte seletivo, um cavalo puxa toras de até uma tonelada por trilhas que máquinas grandes não acessam. A tração contínua é limitada a cerca de 20% do peso do animal, perto de 130 kg num Schwarzwälder de 650 kg, e o treino de um cavalo de arrasto leva de dois a três anos.¹⁷

Em 2024, em Marbach, foram aprovados dois novos garanhões jovens, Maimond e David. E em setembro de 2025 o trigésimo primeiro Rossfest reuniu em St. Märgen criadores, premiações e cortejo histórico, com 80 a 100 cavalos. A festa acontece a cada três anos; a próxima será em 2028.¹⁸ ¹⁰

Ficha técnica

OrigemHochschwarzwald, sul de Baden-Württemberg, Alemanha. Criação documentada desde o século XV.
Stud bookPferdezuchtverband Baden-Württemberg (PZVBW), Marbach. Fechado. Primeiro registro em 1896.
AlturaÉguas 1,48 a 1,56 m; garanhões até 1,60 m.
Peso500 a 650 kg. Kaltblut leve a médio.
PelagemAlazão escuro com crina e cauda claras. Raras: castanho, preto, tordilho, em conservação.
TemperamentoCalmo, dócil, resistente, de manejo simples.
AptidõesTrabalho na floresta, tração agrícola, carruagem, equitação leve, terapia.
StatusAmeaçada. Rote Liste (Alemanha); endangered pela FAO desde 2007.
População1.000 éguas e 92 garanhões em 2022, quase todos na Alemanha; núcleos pequenos em França, Áustria, EUA, Canadá, Austrália e Noruega.
Marca registradaDreiastige Tanne, abeto de três galhos, aplicado a fogo na coxa esquerda.

Linha do tempo

1118Fundação do mosteiro de St. Märgen; monges organizam a criação.
~1450Dingrodel cobra 4 pfennigs por potro.
1880Körgesetz impõe garanhões pesados. Camponeses resistem com o schwarzer Sprung.
1896Fundada a Schwarzwälder Pferdezuchtgenossenschaft. Primeiro stud book.
1914Marquis B7, ardennais cego, é reaprovado por pressão dos criadores.
19471.234 éguas; Mittler é trazido de volta da França.
1972Baden-Württemberg cria o subsídio às éguas reprodutoras.
1973Fundo do poço: 4 garanhões, 187 éguas.
2021Governo federal incentiva cavalos de arrasto na silvicultura.
20221.000 éguas registradas; 350 potros nascidos.

Curiosidades

O abeto de três galhosA marca da raça é o dreiastige Tanne, abeto estilizado com três galhos, aplicado a fogo na coxa esquerda dos animais inscritos no stud book. É marca registrada com proteção jurídica do PZVBW: sem o ferro, o animal não conta como Schwarzwälder Kaltblut puro, mesmo com pedigree.²
O quarto ícone do SchwarzwaldA região tem três símbolos clássicos: o Bollenhut, chapéu de pompons vermelhos das mulheres solteiras de Gutach; o relógio cuco; e a torta Schwarzwälder Kirschtorte. O cavalo alazão é tratado como o quarto, vivo, em material institucional do estado. ¹⁰
Os comandos da florestaNo arrasto de madeira sobrevivem os comandos de voz tradicionais alemães: para avançar, Brr para parar, Hüst para a esquerda, hott para a direita. O cavalo trabalha sozinho com o condutor a pé, sem máquina entre os dois.¹⁷
Por que a raça se chama Floresta Negra?

Schwarzwälder significa habitante da Floresta Negra (Schwarzwald), no sudoeste da Alemanha. Kaltblut é cavalo de tração de sangue frio, em oposição aos cavalos esportivos de sangue quente. A raça também é chamada de Schwarzwälder Fuchs, pela cor alazã dominante.¹

Por que o Schwarzwälder tem crina e cauda mais claras que o corpo?

É o efeito da mutação Silver no gene PMEL17 sobre uma pelagem alazã: o pelo do corpo fica escuro e o pelo longo, claro. O estudo de Mömke e colegas, de 2013, descreveu a presença dessa mutação na raça.¹⁴ ¹⁵

Quanto mede um Cavalo da Floresta Negra?

Éguas medem de 1,48 a 1,56 m na cernelha e garanhões chegam a 1,60 m, com peso entre 500 e 650 kg. É um cavalo de tração de porte médio, menor e mais ágil que os grandes Belgier e Noriker.¹⁹

O Cavalo da Floresta Negra serve para iniciantes?

Sim. Os criadores o descrevem como dócil, resistente e de manejo simples, e ele atrai muitos cavaleiros vindos do cavalo esportivo em busca de um animal mais calmo. Serve à tração, à carruagem, à equitação leve e à terapia.³ ¹⁰

Existe Cavalo da Floresta Negra no Brasil?

Não há registro público de criatório ativo no Brasil; a raça é praticamente desconhecida fora do meio acadêmico. O plantel está concentrado na Alemanha, com pequenos núcleos em França, Áustria, Estados Unidos, Canadá, Austrália e Noruega.²⁰

Fontes

  1. Schwarzwälder Kaltblut. Wikipedia em alemão; consolida BLE, GEH, PZVBW, Frey (1984), Weber (2001/2009). de.wikipedia.org.
  2. PFERDEZUCHTVERBAND BADEN-WÜRTTEMBERG e.V. Site oficial; mantém o Ursprungszuchtbuch fechado. pzv-bw.de.
  3. HAUPT- UND LANDGESTÜT MARBACH. Erhaltungszucht Schwarzwälder. Programa estatal de conservação e estudo da Humboldt-Universität Berlin. hul.landwirtschaft-bw.de.
  4. St. Märgen. Wikipedia em alemão; fundação do mosteiro entre 1115 e 1118. de.wikipedia.org/wiki/St._Märgen.
  5. GEH. Das Schwarzwälder Kaltblutpferd. Dingrodel de ~1450, pista de teste nas ladeiras, secularização de 1806, citação de Anton Straub, 1948 com 1.322 coberturas. g-e-h.de.
  6. PFERDE.DE. Schwarzwälder Fuchs: 7 Fakten zu den Wäldlerpferden. Bollenhut, cuco, Kirschtorte e o cavalo como ícones. pferde.de.
  7. REITERHÖFE-UNTERFRANKEN. Schwarzwälder Kaltblut. Detalha o Körgesetz de 1880. reiterhoefe-unterfranken.de.
  8. PROVIEH. Der Schwarzwälder Fuchs. Descreve o schwarzer Sprung e o subsídio às reprodutoras. provieh.de.
  9. TEXAS LONGHORN RANCH. Schwarzwälder Kaltblut Zucht. Schwarzer Sprung e o fundo de 1973. texaslonghorn.de.
  10. PM-FORUM DIGITAL. Rasseporträt: Schwarzwälder Kaltblut, ed. 01/2024. Weber e Willi Kuri; Marquis B7, citação de Wenzler, Rossfest, dados de 2022. pm-forum-digital.de.
  11. Bundesanstalt für Landwirtschaft und Ernährung (BLE). Einheimische Nutztierrassen in Deutschland und Rote Liste 2021. Confirma 1977 com 159 éguas como mínimo. ble.de.
  12. DIE-PFERDERASSEN.DE. Schwarzwälder Fuchs (St. Märgener). Biografia do Mittler: levado pelos franceses em 1945, recuperado em Mülben em 1946. die-pferderassen.de.
  13. PZVBW. Erhaltung der genetischen Vielfalt. 2024. Transferência de embrião 2018-2020 na última égua tordilha; programa de cores. pzvbw.de.
  14. MÖMKE, S.; SCHRIMPF, R.; DIERKS, C.; DISTL, O. Incidence of Mutation for Silver Coat Color in Black Forest Horses. Iranian J. Applied Animal Science 3(4):859-861, 2013. researchgate.net/276277270.
  15. ANDERSSON, L.S. et al. Equine MCOA and Silver Coat Colour Result from the Pleiotropic Effects of Mutant PMEL. PLoS ONE 8(9), 2013. DOI: 10.1371/journal.pone.0075639. PMC3781063.
  16. PFERDE.WORLD. Holzrückepferde. Acordo de coalizão federal alemão 2021-2025 sobre cavalos de arrasto. pferde.world.
  17. BAS-STIEFEL. Rückepferde für nachhaltiges Abholzen. Comandos de voz Hü/Brr/Hüst/Hott e regra dos 20% do peso corporal. bas-stiefel.de.
  18. MARBACH. Erfolgreicher Kaltblutherbst für Marbach. Out/2024. Aprovação dos garanhões Maimond e David em St. Märgen. hul.landwirtschaft-bw.de.
  19. SCHWEIGHART. Rasse — das Original. Padrão racial atual: éguas 148-156 cm, garanhões até 160 cm. schwarzwaelderpferdezucht-schweighart.de.
  20. CAVALUS. Cavalo da Floresta Negra na Alemanha data do Século 15. Em português, panorama da raça e ausência no Brasil. cavalus.com.br.
André Ferreira

André Ferreira

André é o responsável atual pela condução editorial e estratégica do Multicavalos, um portal voltado ao universo equestre. Entusiasta do ramo, André dedica-se ao estudo e à observação do setor, buscando compreender suas práticas, rotinas, desafios e evoluções.