Cavalos e Suas Origens: Campolina — O Grande Marchador Brasileiro Criado por um Fazendeiro Mineiro

O Campolina é o maior marchador brasileiro, criado em 1870 por Cassiano Campolina em Minas Gerais. Origem, marcha batida e picada, morfologia e história.

Cavalos e Suas Origens: Campolina — O Grande Marchador Brasileiro Criado por um Fazendeiro Mineiro
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Em 1870, Cassiano Campolina perdeu pela primeira vez uma cavalhada, a festa folclórica do interior brasileiro em que cavaleiros encenam a batalha entre mouros e cristãos. Decidiu que o problema estava nos animais. Passou os trinta e quatro anos seguintes criando cavalos melhores. Não chegou a ver o resultado. Mas deixou uma raça.
1870Início da criação
80 mil+Animais registrados
1966Stud book fechado
O Campolina é uma raça equina brasileira originária de Entre Rios de Minas, município do centro-sul de Minas Gerais, criada a partir de 1870 pelo fazendeiro Cassiano Campolina. É o maior marchador brasileiro — machos chegam a 1,62 m de altura e até 600 kg. A marcha, um andamento de quatro tempos sem o impacto do trote, é a característica mais valorizada da raça.¹ ⁵

A Associação Brasileira dos Criadores do Cavalo Campolina (ABCCC), fundada em 1951, mantém o stud book, o registro oficial de pedigree da raça, com livro fechado desde 31 de dezembro de 1966. Mais de 80 mil animais foram registrados ao longo da história da associação.¹

O presente do Imperador

Dom Pedro II soube do projeto de Cassiano e decidiu apoiá-lo. Enviou de presente uma égua chamada Medeia, já prenha de um garanhão Andaluz pertencente à Coudelaria Imperial, o haras do governo imperial localizado no Rio de Janeiro. O Andaluz era o cavalo de prestígio da época na Europa: elegante, forte, de andamento vistoso, usado nas cortes reais.⁶

Medeia pariu um potro que Cassiano batizou de Monarca, em homenagem a Dom Pedro II. Criado na Fazenda do Tanque, em Entre Rios de Minas, Monarca se tornou o garanhão reprodutor fundador da raça: o animal cujos descendentes dariam origem ao Campolina moderno.⁶

Durante trinta anos, cruzando Monarca e seus descendentes com éguas selecionadas da região, Cassiano introduziu reprodutores de outras raças com objetivos específicos.¹ ⁸
Anglo-NormandoRaça francesa de grande porte, desenvolvida na Normandia a partir de cruzamentos com cavalos ingleses. Entrou para dar altura e solidez ao Campolina em formação.
Puro Sangue InglêsRaça britânica de corrida, a mais veloz do mundo. Usado para trazer refinamento e elegância ao porte do Campolina.
Mangalarga MarchadorRaça brasileira já estabelecida em Minas Gerais. Entrou para preservar o andamento suave e a resistência necessária ao trabalho no campo.
PercheronRaça francesa de tração, originária da região de Perche. Grande e musculoso, contribuiu com o porte robusto que tornaria o Campolina o maior dos marchadores brasileiros.
OrloffRaça russa de trote desenvolvida no século XVIII pelo Conde Alexei Orloff. Contribuiu com porte e resistência no processo de formação da raça.

Cassiano Campolina

Cassiano nasceu em 10 de julho de 1836, em São Brás do Suaçuí, no termo de Entre Rios de Minas, Minas Gerais. Seu trabalho foi inteiramente baseado em observação, seleção e paciência. Não havia suporte científico formal, não havia instituição por trás. Havia uma fazenda, décadas de dedicação e a intuição de quem passava a vida entre cavalos.¹

Em 1904, Cassiano faleceu em Entre Rios de Minas. Sua fortuna foi investida na construção de um hospital com seu nome, referência na cidade desde 1910. A raça que criou só seria reconhecida oficialmente décadas depois da sua morte.

O legado que outros continuaram

Após a morte de Cassiano, seu amigo Joaquim Pacheco de Resende e sua família assumiram a continuidade do trabalho, num esforço que durou mais de setenta anos. A família do Coronel Gabriel Augusto de Andrade também foi essencial para preservar a coerência do que havia sido construído.⁷

Na década de 1930, um grupo mais amplo se organizou no Consórcio Profissional Cooperativo dos Criadores da Raça Campolina. A raça não pertencia mais a um criador: pertencia a uma região inteira. O consórcio reunia Paulo Rocha Lagôa, Joaquim Resende, Waldemar Urbano, Coronel Américo de Oliveira, Coronel Gabriel Augusto de Andrade, Bolivar de Andrade, Antonio Dutra, Herculano de Abreu, Renato Pereira Sobrinho e Ascânio Diniz, entre outros criadores mineiros.⁷

Após aproximadamente setenta anos de desenvolvimento conduzido pela intuição de cada criador, ficou claro que a raça precisava de um padrão oficial comum: uma definição escrita do que é e do que não é um Campolina.

1951: a Associação e o stud book

Em 1951, foi fundada em Belo Horizonte a Associação Brasileira dos Criadores do Cavalo Campolina (ABCCC), com Bolivar de Andrade, da Fazenda Campo Grande em Passa Tempo, Minas Gerais, como primeiro presidente.¹

A partir de 31 de dezembro de 1966, o registro passou a ser feito em livro fechado. Isso significa que apenas animais cujos dois pais já estejam registrados no stud book são elegíveis para entrar. É o mecanismo que as associações usam para garantir que a raça não seja diluída por cruzamentos não controlados com outros tipos de animais.

A ABCCC acumula hoje mais de 80 mil animais registrados ao longo de sua história, com criadores em todos os estados brasileiros.¹

Como é o Campolina

O Campolina é o maior marchador brasileiro. As medidas do padrão racial estabelecem alturas mínimas e a altura ideal para cada sexo.¹ ⁵
Altura — machosMínimo de 1,58 m na cernelha, a altura medida do chão até o ponto mais alto das costas, logo atrás do pescoço. Altura ideal: 1,62 m. Alguns exemplares chegam a 1,75 m, o que é incomum mesmo para a raça.
Altura — fêmeasMínimo de 1,52 m na cernelha. Altura ideal: 1,54 m.
PesoMachos: 550 a 600 kg. Fêmeas: 350 a 450 kg.
CabeçaSuavemente convexa, ligeiramente arredondada no perfil sem ser exagerada. Orelhas estreitas e pontudas, chamadas de lanceoladas pelos criadores por terem formato de lança, de tamanho médio e bem posicionadas. Olhos grandes e expressivos.
PescoçoChamado de "rodado" pelos criadores: arqueado e musculoso, com saída alta no corpo. Essa característica dá ao Campolina a postura ereta e altiva que distingue a raça visualmente.
Cernelha e dorsoCernelha longa e bem definida, o que favorece o encaixe da sela. Dorso médio e reto.
Garupa e membrosGarupa ampla e levemente inclinada. Membros fortes e proporcionais ao porte.
Crina e caudaFartas e sedosas.
Pelagens aceitasBaia é predominante, mas alazã, castanha, preta, tordilha, branca e pampa também são encontradas. A pelagem albina é a única não aceita pelo padrão racial.

A marcha do Campolina

A maioria dos cavalos trota. O trote é um andamento de dois tempos com um instante de suspensão: os quatro cascos saem do chão ao mesmo tempo por uma fração de segundo. Quando o animal pousa de volta, o cavaleiro absorve um impacto. Horas de trote significam horas de impacto repetido.

O Campolina não trota. Seu andamento natural é a marcha, um passo de quatro tempos com tríplice apoio: em determinado momento do ciclo, três membros estão em contato com o solo simultaneamente. Não há suspensão e, portanto, não há impacto. O cavaleiro desliza.² ¹

O padrão racial oficial da ABCCC reconhece duas variantes de marcha para o Campolina.²
Marcha batidaMovimento diagonal: os membros se movem em pares diagonais, direito dianteiro com esquerdo traseiro, e vice-versa. Mais encorpada, com mais impulsão. Som compassado e regular dos cascos.
Marcha picadaMovimento lateral: os membros se movem em pares laterais, os dois do lado direito e depois os dois do lado esquerdo. Considerada a mais suave das duas, pois o movimento lateral elimina quase completamente a oscilação vertical para o cavaleiro. Som ritmado e lateral dos cascos.
André Ferreira

André Ferreira

André é o responsável atual pela condução editorial e estratégica do Multicavalos, um portal voltado ao universo equestre. Entusiasta do ramo, André dedica-se ao estudo e à observação do setor, buscando compreender suas práticas, rotinas, desafios e evoluções.